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Quase mil pessoas esperam um leito para Covid-19 no Ceará; veja as 5 cidades com maior demanda

Do total, 522 pessoas aguardam na fila por Unidades de Terapias Intensivas (UTIs).

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O Ceará tem nesta quinta-feira (25) 4.456 leitos exclusivos para Covid-19. O número, apesar de expressivo – sobretudo quando comparado aos indicadores anteriores à pandemia, quando apenas 4 cidades cearenses dispunham de leitos de UTI – ainda se revela insuficiente para contemplar a alta demanda de infecções.

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Atualmente, conforme números da Secretaria da Saúde (Sesa) do Estado, 952 pessoas com suspeita ou confirmação da doença esperam por leitos. Deste total, 522 aguardam por Unidades de Terapias Intensivas (UTIs). 

Fortaleza lidera o ranking, com 249 infectados à espera de leitos. Em seguida estão Maracanaú (31); Sobral (55); Caucaia (49) e Maranguape (31). O número preocupa especialistas. Conforme o médico Francisco Mendonça Júnior, quanto maior for o tempo de espera do paciente, maiores serão as chances de agravamento do quadro clínico, podendo evoluir a óbito

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A empresária Mariana Navarro, 37, sentiu a angústia da falta de leitos por duas vezes. No início deste mês, ela perdeu o tio, Pedro Pessoa, de 79 anos, e, poucos dias depois, viu seu pai, Luciano Pessoa, 73, também ser vencido pela doença que já matou mais de 13 mil pessoas no Ceará. A partida dos dois ocorreu em circunstâncias análogas.

Os irmãos esperaram por mais de dez dias por uma vaga de UTI em Sobral, na região Norte do Estado. A longa espera não teve um desfecho feliz. Pedro morreu no último dia 10 na UPA de Camocim, antes de ser transferido ao Hospital Regional Norte (HRC). Três dias depois seu irmão faleceu dentro da ambulância do Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu), a caminho do HRC. 

Luciano pleiteava por uma vaga desde o dia 3 de março. Quando então ele conseguiu, por intermédio de uma liminar que fora requerida pelo Defensoria Pública do Ceará, já era tarde demais. No processo de transferência o aposentado sofreu uma parada cardíaca e não resistiu.“Ele entrou na ambulância vivo, mas o carro não chegou nem a sair da UPA. Não desejo a ninguém o que passei”, lamenta Mariana.

EXPANSÃO AINDA INSUFICIENTE  

Mas por qual razão, mesmo o Estado tendo quadruplicado os leitos em relação a 2020 – em 2 de junho do ano passado eram 1.120 leitos, até então o número mais alto já registrado – a fila de espera ainda é tão longa e tantas pessoasvivem drama semelhante ao enfrentado por Mariana e seus familiares? 

A médica Luana Barbosa explica que a resposta está no aumento em profusão dos casos que tem ocorrido em maior velocidade do que a capacidade de se abrir um leito, sobretudo os de UTI, que exigem equipamentos e insumos específicos, além de profissionais especializados.

Soma-se a isso o fato de os pacientes nesta segunda onda apresentarem quadros clínicos mais graves, “o que acaba necessitando um maior tempo de internação, que infelizmente reduz a rotatividade nos leitos”. De acordo com a Sesa, o tempo médio de permanência em leitos subiu de 7,1 dias em maio de 2020 para 12,3 dias em março deste ano.

O médico interventor do Samu e chefe de equipe da UPA Bom Jardim, em Fortaleza, Mendonça Júnior, compartilha do mesmo pensamento. Segundo ele, o grande volume de infectados ao mesmo tempo, nesta segunda onda, tem sobrecarregado o sistema de saúde de modo que fica “quase impossível” ter leitos para todos que necessitam.”Não temos para onde enviar esses pacientes. Todos estão adoecendo ao mesmo tempo. E, abrir leitos, não é tão simples. Além de toda a estrutura física, é preciso termos profissionais, e o número desses profissionais está cada vez mais insuficiente. Por mais rico que seja um país ou estado, sempre haverá esse limite”, detalha.Mendonça avalia que para reduzir esta fila de espera, a solução seria conter o avanço do vírus. “O lockdown é importante por essa razão, ele evita que muitos adoeçam ao mesmo tempo. Somente hoje [ontem, na quarta-feira] a noite, tenho sete pacientes entubados aqui na UPA e a gente não tem para onde enviar. É preciso frear a transmissão do vírus e a população tem papel fundamental”.

O especialista acrescenta que, para essas pessoas que estão na fila de espera, os danos à saúde podem ser irreversíveis. “Quanto mais tempo passa, maior vai ser a progressão do quadro clínico deste paciente, podendo evoluir para morte. Infelizmente tem realmente acontecido óbitos de pessoas à espera de leitos”.

O médico pondera ainda que não há um tempo estimado tido como “aceitável” para que um paciente fique na fila de espera. Segundo ele, depende do quadro clínico de cada um.”Tem paciente mais graves que necessitam de transferência imediata para uma UTI. Outros, a gente consegue dar suporte por mais tempo fora da UTI, mas cada caso é um caso”, conclui.   

AMPLIAÇÃO PREVISTA

Fortaleza concentra 26,1% de todas as pessoas do Estado que aguardam leitos. Quando o recorte é feito apenas aos que esperam leitos de UTI, a porcentagem é ainda maior: dos 522 pacientes do Ceará, 159 aguardam na Capital, o que representa 30,4%.

Para tentar dirimir esse cenário, a Secretaria da Saúde de Fortaleza anunciou que “o número de vagas [de leitos] deverá ser ampliado nos próximos dias”. No entanto, a pasta não detalhou quantos leitos serão abertos e quais unidades receberão o aporte. Hoje, Fortaleza conta com 809 leitos de internação, exclusivos para tratamento da Covid-19, entre observação, enfermaria, cuidados respiratórios graves e Unidade de Terapia Intensiva (UTI). 

  • 672 leitos entre observação e enfermaria;
  • 137 entre Unidades de Terapia Intensiva e Cuidados Respiratórios Graves.
  • Taxa de ocupação nas UTIs é de 92,2% e nos leitos de enfermaria 86,6%

Em Caucaia, também haverá ampliação, conforme informou a assessoria de comunicação do Município. Serão 10 leitos de UTI, “já aprovados pelo Ministério da Saúde e com portaria de autorização publicada”. A data de funcionamento, contudo, não foi informada. Atualmente, a cidade conta 10 leitos de UTI no hospital Dr. Abelardo Gadelha da Rocha, todos eles estão ocupados

Em relação aos leitos de enfermaria são 59 no total (37 no Hospital Municipal, 10 na UPA da Sede e mais 12 na UPA da Jurema). Para estes, a taxa de ocupação é de 94,5%, conforme dados do IntegraSus. Questionada sobre quais ações, além de ampliar os leitos, estão sendo realizadas para reduzir a fila de espera, a assessoria limitou-se em responder que “informa [a quantidade de pacientes em espera] na Central de Regulação de leitos, deixando o Estado ciente da urgência da transferência”.

O Município também não respondeu se algum paciente já morreu à espera de leitos de UTIou enfermaria.

Já em Maranguape, são 5 leitos de UTI e 12 de enfermaria. Todos ocupados. A Secretaria da Saúde do Município informou que “cinco novos leitos estão sendo implantados também exclusivamente para casos de Covid-19”.

A pasta não detalhou quando eles passam a funcionar. Ainda conforme a assessoria de Maranguape, não houve nenhum registro de morte em espera por leitos. A Secretaria da Saúde de Maranguape destacou também que “os pacientes que estão aguardando transferência não estão sem receber atendimento. Todos estão sendo assistidos, dentro da UPA do Município ou no Hospital Municipal”.

RESSIGNIFICANDO A MORTE  

A psicóloga Mayara de Oliveira Ferreira explica que os sentimentos experimentados por Mariana Navarro e tantas outras pessoas que perderam entes queridos na fila de espera de transferência tendem a ser “agravados” visto que pode existir a sensação de que “eles poderiam estar vivos casos tivesse assistência”.

“Quando falamos de famílias enlutadas em decorrência da pandemia da Covid-19, percebemos que este fenômeno acaba tomando proporções maiores, tendo como fatores agravantes os sentimentos de raiva, revolta e impotência, principalmente quando a vítima vem a óbito sem a assistência necessária. É um obstáculo a mais para superar e para que as famílias consigam gerenciar esse luto”, detalha. 

A profissional detalha que nesses casos, “essas pessoas [que perderam familiares à espera de leitos] podem ter mais dificuldade em superar o processo, uma vez que ele é vivenciado de forma mais intensa”. Ela elenca alguns sentimentos comuns ao luto, como melancolia, raiva, impotência, culpa, saudade, fadiga (onde as coisas mais simples podem se tornar exaustivas), torpor (sensação de estar anestesiado a dor), solidão, dentre outros. “Quando não conseguimos lidar com esses sintomas emocionais, podemos, inclusive, desenvolver transtornos como depressão, ansiedade, estresse pós-traumático, dentre outros. Esses danos acabam refletindo em diversas áreas de nossa vida, como em nossa rotina, nossa qualidade de vida, nosso trabalho, relacionamentos e até mesmo em nossa saúde física”, conclui.

*Todos os dados desta matéria foram extraídos da plataforma IntegraSus, às 16 horas desta quarta-feira (24).

Fonte: Diário do Nordeste

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