Ao longo dos 22 anos de trajetória, a Cia. Balé Baião mantém o foco na “democratização da arte”, em especial da dança, linguagem que Gerson Moreno, diretor-fundador do grupo tenta incorporar ao dia a dia dos moradores em Itapipoca, cidade-sede do coletivo, localizada no litoral Oeste do Estado, que se destaca pela diversidade cultural. São manifestações religiosas, cujas representações estão materializadas em festas dos santos padroeiros, outras de matrizes africanas e indígenas, bem como dança do coco e maracatu. Além de povoar o imaginário da comunidade, elas servem de referência para a elaboração de obras de arte na contemporaneidade.

Em “A invenção do Baião Teimoso”, espetáculo que o Cia. Balé Baião apresenta nesta quinta (15), às 20h, no Teatro Dragão do Mar, Gerson Moreno mostra a estreita relação entre as manifestações ancestrais e a arte contemporânea.

A proposta é ligar elementos culturais da região à pesquisa de dança contemporânea. “Queremos trazer para a cena esses princípios dramatúrgicos e poéticos, fragmentos da nossa história”, assegura o artista, destacando a característica de resistência associada ao apurado trabalho técnico do grupo. Sem recorrer a apelos cenográficos, dispensando figurinos elaborados, os oito bailarinos preferem mostrar que a dança está no corpo, expressa em movimentos ora delicados, ora rápidos e precisos, imitando a corda bamba da vida. Vestidos com roupas comuns, algumas servem de cenografia, caso do enorme vestido azul, da bailarina que incorpora Iemenjá, os bailarinos exibem suas identidades. Desde as que foram resgatadas por uma ação de memória até às mais recentes.

Dessa maneira, durante 45 minutos, o espetáculo passa em revista componentes da vida real ou imaginária desses moradores, incorporados nos oito bailarinos, que se reinventam no palco. A composição da obra inclui o engajamento social, aliás, um dos principais elementos da criação artística. Depois de passear pelo mundo mágico da cultura popular, revisitando antepassados, o espetáculo retorna ao tempo atual, fazendo alusão à conjunta político-social do momento, responsável por levar, novamente, as pessoas às ruas.
Gerson Moreno identifica o desejo do povo de se inventar nesse delicado momento político. Assim, no último número, os bailarinos trocam as roupas por camisas, que foram usadas em protestos, por diferentes militâncias. Admite que o engajamento social está presente na filosofia do trabalho da companhia, considerada pioneira no cenário da dança contemporânea cearense..

“A invenção do baião teimoso” faz parte do projeto “Quinta com dança” e será apresentado, também, nos dias 22 e 29, sendo realizado pelo edital Temporada de Arte Cearense. A ênfase do trabalho da companhia é no lugar, ou seja, no território, reforçando a noção de identidade e empoderamento. “Itapipoca é uma terra fértil e inspiradora. Falamos de elementos que estão enraizados na nossa memória cultural. As histórias de vida são responsáveis por uma territorialização poética “, analisa o diretor.

Para a criação do espetáculo, enveredou por pesquisas que envolvem traços de ancestralidade do povo de Itapipoca, ao pesquisar sobre as peculiaridades do maracatu, que era brincado na década de 1960, na cidade. O coco do alagadiço é outra vertente da investigação do espetáculo, que presta um tributo ao maracatu cearense. Trabalho minucioso, fala sobre a gênese do nome da obra, referindo-se à palavra “baião”, significa gênero musical e de dança com influência do forró, mas que também remete à mistura, como propõe o espetáculo. “São expressões que nascem com o povo”, diz, esclarecendo que, em Itapipoca, essas tradições são cultivadas.

A partir de investigações foi possível transpor essas referências para a dança contemporânea. “O baião bebe em fontes ancestrais”, afirma, lembrando da dança do coco, e faz parte da memória corporal das pessoas que moram, sobretudo, na região praieira do município. “Cada bailarino traz esses elementos no corpo. O diretor cuida da direção dramatúrgica da obra que é coletiva”, salienta.
O espetáculo constitui um passeio por diversos momentos da memória cultural dos moradores de Itapipoca. Começa pela atualidade, com bailarinos vestindo roupas do cotidiano e relacionando o baião com a influência hip hop. É uma maneira de enfatizar a mistura de ingredientes do “baião”. A opção por não ter cenografia faz com que o púbico priorize “o que o corpo desenvolve em cena”, argumenta Gerson Moreno.

O apelo ao real é uma constante na obra, desde sua concepção, passando pelas roupas, trocadas de acordo com as cenas. “Usamos a roupa da rainha do maracatu e o capoeirista se veste como pescador”. A pluralidade dos copos dos bailarinos, bem com da faixa etária demonstram que todo corpo é capaz de dançar, como preceitua a dança contemporânea.
Considerada veterana, a Cia Balé Baião, escola de dança livre, é hoje uma associação, entidade jurídica sem fins lucrativos, funcionando no Ponto de Cultura Galpão da Cena, na periferia de Itapipoca. Ao estabelecer um diálogo com a comunidade, usando a dança como linguagem, é possível realizar um trabalho socioeducacional em escolas públicas.
Gerson Moreno festeja o convênio firmado com a Universidade Estadual do Ceará (UECE) para a criação de um curso técnico de dança. Considera privilégio estrear mais um espetáculo, lembrando que a companhia foi a primeira do interior a fazer temporada na Capital, com o espetáculo “Etnia: o baião das três raças”, em 2000.

Mais informações:
Estreia do espetáculo “A invenção do baião teimoso”, da Cia Balé Baião, hoje (15), às 20h, no Teatro Dragão do Mar (Rua Dragão do Mar, 81, Praia de Iracema). Ingressos: R$ 10 (inteira) e R$ 5 (meia). Contato: (085) 3488.8600

Diário do Nordeste


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