Uma avalanche de lama, água e rochas provocou uma grande tragédia na região montanhosa entre o Nepal e o Tibete, na cordilheira do Himalaia, nesta quarta-feira (26). O desastre atingiu comunidades dos dois lados da fronteira, deixando mortos, desaparecidos e um grande rastro de destruição.
Até as 12h48, os balanços divulgados pelas autoridades apontavam 98 mortes e 844 pessoas desaparecidas. No Nepal, foram contabilizados 95 mortos e 579 desaparecidos. No lado chinês, na região do Tibete, três pessoas morreram e outras 265 estavam desaparecidas.
O fenômeno atingiu principalmente áreas próximas a rios, onde a força da água carregada de lama e detritos destruiu construções e interrompeu importantes vias de acesso.
Porto de Gyirong foi atingido pela avalanche
Um dos pontos mais afetados foi o porto terrestre de Gyirong, no Tibete, importante ligação entre a China e o Nepal. O local foi atingido por volta das 10h30 no horário local, equivalente às 23h30 de terça-feira (25) no horário de Brasília.
Imagens registradas por câmeras de segurança mostram a dimensão da ocorrência. Nos vídeos, pessoas aparecem tentando deixar o local momentos antes de uma enorme quantidade de lama atingir e engolir parte das estruturas.
A avalanche também provocou interrupções nas estradas, nas comunicações e no fornecimento de energia em áreas do território chinês.
No Nepal, comunidades instaladas às margens de rios foram surpreendidas pela forte correnteza. Registros feitos por moradores, testemunhas e veículos de imprensa mostram ruas e localidades completamente tomadas pela lama e pela água.
Casas, pontes, estradas e estruturas de geração de energia foram destruídas.
Região mais atingida fica próxima à fronteira
O desastre ocorreu na área de fronteira entre o distrito de Rasuwa, no norte do Nepal, e o condado de Gyirong, no Tibete.
No território nepalês, as localidades de Syapru Besi e Timure, próximas aos cursos d’água, estão entre as áreas mais afetadas.
Do lado chinês, a avalanche atingiu o porto de Gyirong, localizado na região de Shigatse. O ponto é utilizado por turistas e viajantes que atravessam a fronteira entre Nepal e China.
Centenas de pessoas estão desaparecidas
O levantamento divulgado até o início da tarde apontava 844 desaparecidos nos dois lados da fronteira.
Nepal:
- 95 mortos;
- 579 desaparecidos.
China, no Tibete:
- 3 mortos;
- 265 desaparecidos.
A situação também preocupa por causa da presença de turistas e trabalhadores estrangeiros na região.
Um levantamento preliminar do Conselho de Turismo do Nepal apontou 341 viajantes desaparecidos nas áreas atingidas. Entre eles estão 105 cidadãos da Índia, 17 da Malásia, 12 do Reino Unido, quatro da África do Sul, três dos Estados Unidos, um da Austrália e um dos Países Baixos.
Também foram identificados 37 indianos que vivem fora da Índia entre os desaparecidos. Em 161 casos, a nacionalidade ainda não havia sido confirmada.
A agência sul-coreana Yonhap informou ainda que aproximadamente oito cidadãos da Coreia do Sul, que trabalhavam em uma usina hidrelétrica na região, estavam desaparecidos.
Até o momento, o Itamaraty informou não ter informações sobre brasileiros entre as vítimas ou desaparecidos.
Terremoto pode ter contribuído para o desastre
Pouco antes da ocorrência, um terremoto de magnitude 4,4 foi registrado na região. Segundo dados do Serviço Geológico dos Estados Unidos (USGS), o tremor teve epicentro a cerca de 10 quilômetros de profundidade.
Ainda não existe confirmação oficial de que o terremoto tenha provocado diretamente a avalanche e as enchentes. Uma das hipóteses investigadas é de que o tremor tenha desencadeado o deslocamento de gelo e rochas no rio Lhende Khola, no lado nepalês.
A região também havia registrado períodos de chuvas intensas. Parte da água teria ficado represada por gelo e outros materiais. Com o possível rompimento dessa barreira, um grande volume de água teria sido liberado de forma repentina, aumentando a força da inundação.
Autoridades mobilizam equipes de emergência
Diante da dimensão da tragédia, o primeiro-ministro do Nepal, Balendra Shah, convocou uma reunião de emergência com integrantes da estrutura nacional de gerenciamento de desastres.
Policiais, militares, equipes médicas, escoteiros e voluntários da Cruz Vermelha foram mobilizados para atuar nas buscas e no atendimento às vítimas.
As operações de resgate enfrentavam dificuldades, principalmente devido às condições das áreas atingidas. O nível da água impedia, em determinados pontos, o pouso de helicópteros, dificultando o acesso das equipes às comunidades isoladas.
Na China, o presidente Xi Jinping determinou que fossem realizados esforços para localizar os desaparecidos e reforçou a necessidade de monitoramento da região e dos sistemas de alerta para possíveis novos eventos.
Existe risco de uma nova inundação
As autoridades também alertaram para a possibilidade de uma nova enchente.
Um bloqueio formado por gelo e rochas permanecia no curso superior do rio Lhende Khola, acumulando água atrás da barreira. Caso essa estrutura natural se rompa, um novo volume de água pode atingir as áreas localizadas rio abaixo.
O risco levou à emissão de alertas de cheia também em regiões da Índia, incluindo os estados de Bihar e Uttar Pradesh.
Região é destino de turistas e peregrinos
A presença de turistas em Rasuwa está relacionada principalmente à localização estratégica do distrito e às atrações naturais e religiosas do Himalaia.
Uma das principais rotas passa pela região em direção ao Monte Kailash, no Tibete, considerado sagrado por diferentes tradições religiosas, incluindo o hinduísmo. Todos os anos, milhares de peregrinos viajam para a área.
O Nepal é uma das principais portas de entrada para quem segue em direção ao monte. Os viajantes passam por Rasuwa e podem cruzar a fronteira entre os dois países pelo posto de Rasuwagadhi. Do outro lado está Gyirong, de onde a viagem continua em direção ao Tibete.
Além do turismo religioso, Rasuwa é conhecida pelas paisagens da região de Langtang, uma das áreas mais procuradas para trilhas e expedições no Himalaia nepalês.
Localizada a aproximadamente 130 quilômetros ao norte de Katmandu, a região reúne montanhas de grande altitude, vales, geleiras e lagos, atraindo visitantes de diversas partes do mundo.
Com a destruição provocada pela avalanche e pelas enchentes, equipes de emergência dos dois países continuam trabalhando para localizar sobreviventes e identificar as pessoas que permanecem desaparecidas.



