Medicamentos à base de corticoides, amplamente utilizados no tratamento de alergias, inflamações e problemas respiratórios, têm sido apontados por especialistas como um dos fatores que podem favorecer o desenvolvimento do glaucoma quando usados de forma prolongada e sem acompanhamento médico.
A preocupação mobilizou entidades da área oftalmológica, que defendem regras mais rígidas para a comercialização desses medicamentos. Segundo a Sociedade Brasileira de Glaucoma (SBG), o uso indiscriminado de corticoides representa um desafio para a saúde pública e pode colocar em risco a visão de milhares de brasileiros.
O glaucoma é uma doença que afeta o nervo óptico e está frequentemente associado ao aumento da pressão intraocular. Considerada uma das principais causas de cegueira irreversível no mundo, a enfermidade não tem cura, mas pode ser controlada quando diagnosticada precocemente.
Estimativas apontam que cerca de 1,7 milhão de pessoas convivem com a doença no Brasil. Entre a população acima dos 40 anos, a prevalência varia entre 2,5% e 3,5%, aumentando progressivamente com o avanço da idade.
De acordo com especialistas, os corticoides podem estar presentes em colírios, pomadas, comprimidos, inalações e outros medicamentos utilizados para tratar diferentes problemas de saúde. Embora sejam eficazes no combate a processos inflamatórios, seu uso contínuo pode interferir na drenagem do líquido natural dos olhos, elevando a pressão intraocular.
Quando esse aumento da pressão permanece por longos períodos, o nervo óptico pode sofrer danos permanentes, comprometendo a visão e favorecendo o surgimento do glaucoma.
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Além dos riscos para a saúde ocular, o uso prolongado de corticoides também está associado a diversas complicações sistêmicas, como aumento da glicose no sangue, agravamento do diabetes, hipertensão arterial, retenção de líquidos, ganho de peso, fragilidade óssea, alterações hormonais e maior suscetibilidade a infecções.
Diante do cenário, a Sociedade Brasileira de Glaucoma, o Conselho Brasileiro de Oftalmologia (CBO) e a Sociedade Brasileira de Oftalmologia Pediátrica (SBOP) encaminharam uma nota pública à Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), ao Ministério da Saúde, ao Congresso Nacional e a entidades médicas de diferentes especialidades defendendo medidas para ampliar o controle sobre a prescrição e a venda desses medicamentos.
A proposta das entidades é adotar mecanismos semelhantes aos já utilizados para antibióticos, cuja comercialização exige receita médica com retenção de uma via pela farmácia, permitindo maior rastreabilidade e fiscalização.
Os especialistas destacam que pessoas que já possuem glaucoma merecem atenção especial. Estudos apontam que a grande maioria desses pacientes apresenta sensibilidade aos corticoides, o que pode provocar elevações significativas da pressão ocular e acelerar a progressão da doença.
As crianças também estão entre os grupos que exigem cuidados redobrados. Em casos de alergias oculares recorrentes, o uso frequente de colírios com corticoides sem supervisão médica pode aumentar a pressão intraocular e favorecer o desenvolvimento precoce de catarata.
Segundo as entidades médicas, o monitoramento da pressão ocular deve fazer parte da rotina de pacientes que necessitam utilizar corticoides por períodos prolongados, especialmente idosos, crianças e pessoas com fatores de risco para glaucoma.
Os oftalmologistas reforçam ainda a necessidade de conscientização da população sobre os riscos da automedicação. A orientação é que medicamentos contendo corticoides sejam utilizados apenas sob prescrição e acompanhamento profissional, evitando complicações que podem comprometer de forma definitiva a saúde visual.



