O colesterol elevado está entre os principais fatores de risco para doenças cardiovasculares e pode permanecer silencioso durante anos antes de provocar complicações. Neste sábado (8), Dia Nacional de Prevenção e Controle do Colesterol, o cardiologista Renato Jorge Alves, vice-presidente do Departamento de Aterosclerose da Sociedade Brasileira de Cardiologia (SBC), reforça a importância do diagnóstico precoce e da prevenção desde a infância.
Em entrevista à Agência Brasil, o especialista destacou que um estudo publicado em setembro de 2025 recomenda que todas as pessoas façam a dosagem do colesterol aos 10 anos de idade. O exame pode ser realizado juntamente com a avaliação da glicose.
A recomendação considera que alterações nos níveis de colesterol podem não apresentar sintomas. Sem o diagnóstico e o acompanhamento adequados, o excesso de colesterol pode contribuir para a formação de placas de gordura nas artérias, processo conhecido como aterosclerose.
Alimentação e atividade física
Para reduzir o risco cardiovascular, Alves recomenda a adoção de hábitos saudáveis, principalmente uma alimentação equilibrada e a prática regular de exercícios físicos.
O cardiologista orienta evitar o consumo excessivo de gordura saturada, presente principalmente em carnes vermelhas, frios e embutidos. Também é importante reduzir a ingestão de gordura trans, encontrada em diversos alimentos ultraprocessados, como salgadinhos e biscoitos recheados.
Segundo o especialista, mudanças na alimentação costumam provocar uma redução de aproximadamente 5% a 10% nos níveis de colesterol. Isso ocorre porque cerca de 70% do colesterol é produzido pelo próprio organismo.
A atividade física também exerce papel importante no controle dos fatores de risco. A recomendação é acumular entre 150 e 300 minutos de exercícios por semana.
O cuidado deve incluir ainda a qualidade do sono. Dormir mal pode prejudicar o metabolismo e favorecer alterações nos níveis de colesterol e triglicérides. O estresse também pode contribuir para o aumento da pressão arterial e dificultar o controle dos fatores de risco cardiovasculares.
Cardiologista desaconselha dieta carnívora
Renato Jorge Alves também comentou sobre a chamada dieta carnívora, que elimina alimentos de origem vegetal e prioriza o consumo de carnes e outros produtos de origem animal.
Para o cardiologista, esse modelo de alimentação não é indicado para quem pretende reduzir o colesterol. Segundo ele, uma dieta saudável precisa ser equilibrada e fornecer proteínas, carboidratos e gorduras em quantidades adequadas.
O consumo elevado de carne, especialmente carne vermelha, pode aumentar a ingestão de gordura saturada e contribuir para a elevação do LDL, conhecido popularmente como colesterol ruim.
A preocupação é ainda maior entre pessoas que já apresentam colesterol elevado. Nesses casos, o excesso de carne vermelha pode contribuir para o aumento do LDL e se somar a outros fatores que elevam o risco cardiovascular.
Níveis muito altos podem indicar doença genética
Nem sempre o colesterol elevado é resultado dos hábitos alimentares ou do sedentarismo. Em determinados pacientes, a alteração está relacionada a fatores genéticos.
De acordo com Alves, concentrações superiores a 300 miligramas por decilitro (mg/dL) podem indicar uma forte possibilidade de origem genética.
Uma das condições associadas ao problema é a hipercolesterolemia familiar, doença hereditária capaz de provocar níveis extremamente elevados de colesterol desde a infância.
Em casos graves, a doença pode provocar o desenvolvimento precoce de placas de gordura nas artérias e comprometer a circulação sanguínea. Existem situações em que crianças podem apresentar complicações cardiovasculares ainda muito jovens.
Por isso, o diagnóstico precoce é considerado fundamental. Quanto mais cedo o problema for identificado e tratado, maiores são as possibilidades de reduzir o risco de complicações ao longo da vida.
Estatinas fazem parte do tratamento
Nos casos em que as mudanças no estilo de vida não são suficientes ou quando o paciente apresenta risco cardiovascular elevado, o tratamento pode incluir medicamentos.
Entre os principais estão as estatinas, utilizadas para reduzir os níveis de colesterol e, consequentemente, o risco de eventos cardiovasculares.
Alves reforça que quem recebeu indicação médica para utilizar esses medicamentos não deve interromper o tratamento por conta própria. A suspensão pode fazer com que os níveis de colesterol voltem a subir.
Quando a estatina isoladamente não consegue levar o paciente à meta estabelecida pelo médico, outros medicamentos podem ser associados, conforme o risco cardiovascular e as características de cada pessoa.
O especialista também destaca que a disponibilidade de versões genéricas contribuiu para ampliar o acesso ao tratamento.
Desinformação nas redes sociais
A disseminação de informações falsas sobre colesterol e estatinas nas redes sociais é outro ponto de preocupação para o cardiologista.
Segundo Alves, conteúdos que afirmam que o colesterol não existe ou que as estatinas seriam prejudiciais não correspondem às evidências científicas disponíveis.
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O especialista destaca que os benefícios das estatinas são sustentados por décadas de estudos. Pesquisas realizadas desde a década de 1990 demonstram redução de eventos cardiovasculares em pacientes que utilizam os medicamentos quando há indicação clínica.
Entre os resultados observados estão a redução do risco de infarto, AVC e morte relacionada a doenças cardiovasculares.
Obesidade aumenta risco cardiovascular
A obesidade também ocupa posição importante entre os fatores que podem contribuir para o desenvolvimento de doenças cardiovasculares.
Segundo o cardiologista, o excesso de peso está frequentemente relacionado à síndrome metabólica, condição que pode envolver alterações como diabetes, hipertensão arterial e aumento da gordura abdominal.
O excesso de gordura corporal pode favorecer um estado inflamatório crônico e provocar alterações metabólicas que afetam diferentes órgãos.
No entanto, Alves explica que a obesidade não costuma ser a causa inicial da hipercolesterolemia familiar, uma vez que essa condição possui origem genética. Nesse caso, alterações relacionadas ao estilo de vida podem se somar posteriormente ao problema.
Colesterol, diabetes, hipertensão e tabagismo
Infarto e acidente vascular cerebral continuam entre as principais causas de morte no Brasil e no mundo. Entre os principais fatores de risco estão colesterol elevado, diabetes, hipertensão arterial e tabagismo.
A obesidade também vem ganhando espaço entre os fatores que exigem atenção, principalmente diante do crescimento do número de pessoas afetadas.
O excesso de gordura corporal pode contribuir para um processo inflamatório crônico e favorecer a instabilidade das placas de gordura nas artérias, aumentando a possibilidade de eventos cardiovasculares.
Outras doenças inflamatórias crônicas também podem elevar esse risco, entre elas lúpus, HIV, artrite reumatoide, fibromialgia e doença inflamatória intestinal.
Prevenção começa na infância
Para Renato Jorge Alves, o controle do colesterol deve fazer parte de uma estratégia de prevenção que começa cedo. A realização de exames ainda na infância pode ajudar a identificar alterações antes que elas provoquem danos às artérias.
A partir do diagnóstico, o tratamento deve ser definido individualmente por um profissional de saúde. Dependendo do caso, pode envolver mudanças na alimentação, exercícios físicos, controle do peso e medicamentos.
A recomendação é que pessoas com colesterol elevado mantenham acompanhamento médico e não interrompam o tratamento por conta própria.
Além disso, controlar a pressão arterial, o diabetes, o peso corporal e outros fatores de risco pode contribuir para diminuir as chances de infarto e AVC e preservar a saúde cardiovascular ao longo da vida.



