El Niño pode afetar mais de 30 milhões de crianças e adolescentes no Brasil

Fenômeno pode intensificar calor, secas e chuvas extremas, comprometendo o acesso de crianças e adolescentes à saúde, alimentação, água e educação.

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Mais de 30 milhões de crianças e adolescentes no Brasil, o equivalente a seis em cada dez, já estão expostos a pelo menos dois riscos climáticos. Com a intensificação dos efeitos do El Niño, essa população pode enfrentar impactos ainda maiores em áreas como saúde, alimentação, acesso à água, educação e proteção social.

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Os dados fazem parte de uma nova análise do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef), que chama atenção para a vulnerabilidade da população infantil diante de eventos climáticos extremos.

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Segundo o levantamento, aproximadamente 16 milhões de crianças e adolescentes estão expostos a três ou mais riscos climáticos. Para o Unicef, a combinação entre fenômenos meteorológicos extremos, mudanças climáticas, degradação ambiental e vulnerabilidades sociais pode ampliar os prejuízos provocados por períodos de seca, calor intenso e chuvas fortes.

Eventos recentes mostram dimensão dos impactos

O Brasil já registrou episódios que demonstram como os fenômenos climáticos podem afetar diretamente a infância.

Em 2024, as enchentes que atingiram o Rio Grande do Sul afetaram a educação de aproximadamente 741 mil estudantes. Na Amazônia, uma seca extrema atingiu outros 436 mil alunos.

Somados, os dois episódios provocaram a interrupção das aulas para cerca de 1,17 milhão de crianças e adolescentes.

Os impactos, no entanto, vão além do fechamento das escolas. Eventos extremos também podem dificultar o acesso aos serviços de saúde, interromper campanhas de vacinação, comprometer o abastecimento de água e aumentar a insegurança alimentar das famílias.

El Niño altera padrões de chuva e temperatura

O El Niño é um fenômeno natural caracterizado pelo aumento das temperaturas das águas do Oceano Pacífico Equatorial. Essa alteração interfere na circulação atmosférica e modifica os padrões de chuva e temperatura em diferentes regiões do planeta.

Embora faça parte de um ciclo natural, seus efeitos podem ser agravados pelas mudanças climáticas e pela degradação ambiental provocadas pela atividade humana.

A intensidade dos impactos também está relacionada às características de cada região, às condições ambientais, às vulnerabilidades existentes e à capacidade dos serviços públicos de se prepararem e responderem às emergências.

O fenômeno ocorre, em média, a cada dois a sete anos.

Para o Unicef, o planejamento precisa ir além da preparação para um único período de maior instabilidade climática. A organização defende a construção de uma rede permanente de proteção capaz de reduzir os impactos de futuros eventos extremos.

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Previsões indicam cenário de temperaturas elevadas

Um boletim divulgado em 1º de setembro por órgãos oficiais apontou mais de 90% de probabilidade de o El Niño atingir intensidade muito forte no trimestre de setembro, outubro e novembro.

A previsão indicou tendência de chuvas abaixo da média em grande parte do Norte e Nordeste, enquanto o Sul poderia registrar precipitações acima da média.

As temperaturas também tendem a permanecer acima da média em praticamente todo o país. A combinação de calor e estiagem pode ainda prolongar condições favoráveis à ocorrência de queimadas em áreas das regiões Centro e Norte.

Para Danilo Moura, especialista em Clima e Meio Ambiente do Unicef no Brasil, as previsões meteorológicas indicam onde podem ocorrer alterações nos volumes de chuva e nas temperaturas, mas é necessário observar também como essas mudanças afetam a rotina das crianças.

Uma seca pode significar falta de água segura, aumento da exposição à fumaça e dificuldade para chegar à escola ou a uma unidade de saúde. Já uma enchente pode provocar o fechamento de escolas, interrupção da vacinação e perda da renda familiar.

Crianças são mais vulneráveis aos extremos climáticos

Por estarem em fase de desenvolvimento, crianças e adolescentes apresentam maior sensibilidade a alguns dos efeitos provocados pelos extremos climáticos.

Calor intenso, desidratação, exposição à fumaça, má nutrição e doenças relacionadas às alterações de temperatura e aos padrões de chuva podem representar riscos importantes.

Além disso, essa população depende dos adultos e dos serviços públicos para ter acesso a necessidades básicas, como água potável, alimentação, atendimento médico, educação e proteção.

Por isso, os efeitos do El Niño podem desencadear uma sequência de problemas que ultrapassa as alterações meteorológicas e chega diretamente ao cotidiano das famílias.

Saúde pode ser afetada

Na área da saúde, períodos de calor extremo podem aumentar os riscos de desidratação e outros problemas. Secas podem reduzir a disponibilidade de água segura, enquanto enchentes podem contaminar fontes de abastecimento e danificar sistemas de saneamento.

Essas condições podem favorecer doenças diarreicas e dificultar o acesso da população aos serviços de saúde.

As alterações de temperatura e umidade também podem influenciar a transmissão de doenças como a dengue, ao favorecer a proliferação do mosquito Aedes aegypti.

Entre as medidas de preparação estão o fortalecimento da vigilância epidemiológica, a manutenção dos serviços de vacinação e das equipes de saúde da família, além do planejamento antecipado para garantir medicamentos e outros insumos essenciais.

Produção de alimentos pode ser prejudicada

A alimentação e a nutrição também estão entre as áreas que podem sofrer consequências.

Perdas agrícolas, redução da renda das famílias e aumento dos preços dos alimentos podem ampliar a insegurança alimentar e os casos de má nutrição.

Segundo o Unicef, os efeitos de uma safra prejudicada podem aparecer somente meses depois. Por isso, a organização defende o fortalecimento do monitoramento nutricional e a identificação precoce de crianças que estejam em situação de desnutrição.

Também é necessário garantir que os serviços de saúde, inclusive em áreas remotas ou isoladas, tenham capacidade de identificar e tratar esses casos.

Abastecimento de água também preocupa

A disponibilidade de água potável e saneamento pode ser comprometida tanto pela seca quanto pelas enchentes.

Durante períodos de estiagem, a quantidade de água disponível pode diminuir. Já as inundações podem contaminar fontes de abastecimento e danificar estruturas de saneamento.

Entre as medidas preventivas estão o monitoramento e a proteção das fontes de água, a elaboração de planos de contingência para manter os sistemas funcionando durante eventos extremos e a garantia de insumos necessários para o tratamento da água.

Em regiões ameaçadas por secas severas, estratégias comunitárias de armazenamento também podem ajudar a garantir o abastecimento.

Educação pode ser interrompida

Os efeitos climáticos também podem comprometer a educação.

Falta de água, perda da navegabilidade de rios, calor extremo, fumaça de queimadas, enchentes e danos à infraestrutura podem impedir o funcionamento das escolas ou dificultar o deslocamento de estudantes e profissionais.

Além das aulas, serviços oferecidos nas unidades de ensino, como a alimentação escolar, também podem ser interrompidos.

O Unicef recomenda que as redes de ensino revisem seus planos de gestão de riscos e estejam preparadas para adotar alternativas que garantam a continuidade da aprendizagem durante períodos de emergência.

Famílias podem perder renda e moradia

A perda da moradia, do emprego ou da produção também pode reduzir a capacidade das famílias de garantir as necessidades básicas das crianças.

Por isso, sistemas de proteção social preparados para situações de emergência podem ajudar a manter ou ampliar benefícios e acelerar o atendimento às famílias afetadas.

Outra medida recomendada é a atualização dos cadastros de famílias vulneráveis que vivem em áreas de risco antes da ocorrência de desastres.

Preparação antecipada pode reduzir impactos

Para Danilo Moura, esperar uma escola fechar, um posto de saúde ficar isolado ou uma comunidade perder o acesso à água para somente depois iniciar as medidas de resposta significa agir tarde demais.

“Nós já sabemos que há um El Niño forte em curso e conhecemos os tipos de impacto que podem atingir diferentes regiões. Preparar os serviços agora custa menos, permite responder mais rápido e, principalmente, evita que a emergência climática se transforme em uma emergência para as crianças”, afirmou.

O Unicef defende que governos e serviços públicos utilizem as previsões climáticas para antecipar ações de proteção e reduzir os impactos sobre crianças e adolescentes. A preparação prévia, segundo a organização, pode evitar que eventos extremos provoquem interrupções prolongadas no acesso à saúde, educação, alimentação, água e outros direitos fundamentais.

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