Uma pesquisa científica brasileira que investiga o uso da polilaminina para tratar lesões na medula espinhal ganhou grande destaque nos últimos dias. Desenvolvida por pesquisadores da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) em parceria com a farmacêutica Cristália, a substância vem sendo estudada há mais de duas décadas e pode representar um avanço importante no tratamento de pessoas com paralisia causada por danos na medula.
Apesar do entusiasmo gerado pelos resultados iniciais, especialistas ressaltam que ainda é cedo para afirmar com certeza que a tecnologia é capaz de restaurar movimentos em pacientes. Antes de chegar ao uso clínico amplo, a polilaminina ainda precisa passar por diferentes etapas de testes em humanos para comprovar sua segurança e eficácia.
Descoberta ocorreu durante estudo de proteínas
A polilaminina foi descoberta pela bióloga Tatiana Sampaio Coelho enquanto ela estudava a laminina, uma proteína presente em diversas estruturas do corpo humano. Durante um experimento em laboratório, a pesquisadora observou que, ao invés de se separar, as moléculas de laminina começaram a se unir, formando uma espécie de rede molecular — estrutura que passou a ser chamada de polilaminina.
Essa rede chamou a atenção dos cientistas porque, no sistema nervoso, as lamininas funcionam como uma base de sustentação para os axônios, estruturas dos neurônios responsáveis por transmitir impulsos elétricos e químicos pelo corpo.
Quando ocorre uma lesão na medula espinhal, esses axônios são rompidos, interrompendo a comunicação entre o cérebro e as partes do corpo localizadas abaixo da área afetada. Como as células nervosas têm capacidade limitada de regeneração, essa interrupção geralmente provoca paralisia permanente.
A hipótese dos pesquisadores é que a polilaminina possa criar uma nova estrutura de suporte para que os axônios voltem a crescer, permitindo a reconexão das vias nervosas e a retomada parcial ou total dos movimentos.
Testes iniciais apresentaram resultados promissores
Antes de iniciar testes em humanos, os pesquisadores passaram anos realizando experimentos em laboratório e em animais, etapa conhecida como fase pré-clínica. Após resultados positivos em estudos com ratos, foi realizado um projeto-piloto entre 2016 e 2021 com oito pacientes que haviam sofrido lesões graves na medula.
Os voluntários sofreram acidentes diversos, como quedas, colisões de carro e ferimentos por arma de fogo. Além da aplicação da polilaminina, sete deles também passaram por cirurgia de descompressão da coluna, procedimento comum nesses casos.
Veja também
Durante o estudo, três pacientes morreram em decorrência da gravidade das lesões. No entanto, os cinco que sobreviveram apresentaram algum grau de recuperação motora após o tratamento.
A evolução foi medida por meio da escala AIS, utilizada internacionalmente para avaliar lesões medulares. Quatro pacientes evoluíram do nível A — considerado o mais grave — para o nível C, indicando recuperação parcial da sensibilidade e de movimentos. Um deles alcançou o nível D, com recuperação mais significativa das funções motoras.
Entre os casos relatados está o de Bruno Drummond de Freitas, que sofreu uma fratura cervical em 2018 e ficou tetraplégico. Após a cirurgia e o tratamento experimental, ele relatou ter conseguido movimentar o dedo do pé poucas semanas depois, sinal que indicava que os impulsos nervosos voltavam a percorrer o corpo. Com anos de fisioterapia e reabilitação, Bruno conseguiu voltar a andar, embora ainda enfrente algumas limitações nas mãos.
Nova fase de testes começa agora
Apesar dos resultados encorajadores, os pesquisadores ressaltam que o estudo piloto não é suficiente para comprovar cientificamente a eficácia da substância. Em alguns casos, pacientes com lesão medular completa podem recuperar movimentos espontaneamente, o que exige estudos mais amplos para confirmar se a melhora está realmente relacionada ao tratamento.
Agora, o projeto entra na fase 1 dos ensaios clínicos, etapa destinada principalmente a avaliar a segurança da substância em humanos. Essa fase costuma envolver poucos participantes e serve para verificar possíveis efeitos colaterais e como o organismo reage ao tratamento.
De acordo com a aprovação da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), a nova etapa envolverá cinco voluntários entre 18 e 72 anos que tenham sofrido lesões completas e recentes na medula espinhal torácica. Os procedimentos serão realizados no Hospital das Clínicas da Universidade de São Paulo.
Por ser aplicada diretamente na medula, a polilaminina será testada em pacientes que já sofreram lesão medular aguda, e não em pessoas saudáveis, como costuma ocorrer em muitos estudos clínicos.
Caminho até um possível tratamento
O processo de desenvolvimento de um novo medicamento normalmente passa por três fases principais de testes clínicos. Após a fase 1, que avalia a segurança, a fase 2 amplia o número de participantes para investigar a eficácia e determinar a dose ideal. Já a fase 3 envolve um número maior de voluntários e compara os resultados do novo tratamento com os métodos já existentes.
Segundo os pesquisadores, todo o processo pode levar cerca de dois anos e meio até a conclusão das etapas previstas.
Mesmo com as incertezas, cientistas e autoridades da área de saúde destacam que a polilaminina representa uma possibilidade promissora para o tratamento de lesões medulares — um problema que afeta milhões de pessoas no mundo e ainda possui poucas alternativas terapêuticas eficazes.
Caso sua eficácia seja confirmada nos testes clínicos, a descoberta poderá se tornar uma das mais importantes contribuições da ciência brasileira para a medicina moderna.



