Perda gestacional pode provocar impactos profundos na saúde mental e exige rede de apoio

Especialistas alertam que o sofrimento após a interrupção da gravidez não deve ser minimizado e defendem acompanhamento médico, psicológico e acolhimento durante o período de luto.

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A perda de uma gestação pode desencadear um processo de luto profundo e afetar significativamente a saúde mental da mulher. Apesar disso, o sofrimento nem sempre recebe a atenção necessária de familiares, amigos e até de profissionais de saúde, segundo especialistas da Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (Febrasgo).

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A história de Kalyane Ribeiro, que nasceu em uma família numerosa em Manaus, ilustra essa realidade. Aos 32 anos, depois de cerca de um ano e meio tentando engravidar, ela enfrentou uma perda gestacional precoce.

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Para Kalyane, a experiência trouxe uma sensação de isolamento difícil de explicar para quem não passou pela mesma situação. Segundo ela, muitas vezes a mulher acaba ouvindo frases que tentam minimizar a dor, como a recomendação para simplesmente tentar engravidar novamente.

“Você vai ter que tentar de novo, vai dar certo”, é uma das frases que ela relata ter escutado. Para Kalyane, porém, uma nova gravidez não representa a substituição do filho perdido.

“Não é uma questão de substituir o filho. A gente não está procurando um substituto”, afirma.

Um processo que pode ser traumático

De acordo com o obstetra Romulo Negrini, vice-presidente da Comissão Nacional Especializada em Assistência ao Abortamento, Parto e Puerpério da Febrasgo, a perda gestacional deve ser encarada como um acontecimento potencialmente traumático, independentemente do estágio da gravidez.

Entre as possíveis consequências estão tristeza intensa, sensação de vazio, culpa, ansiedade, alterações no sono, irritabilidade e perda de interesse por atividades que antes faziam parte da rotina.

Negrini ressalta, entretanto, que sofrer intensamente após uma perda não significa necessariamente que a mulher tenha desenvolvido um transtorno psiquiátrico. O luto é uma reação esperada diante de uma experiência dolorosa.

O obstetra Eduardo Felix Martins Santana, integrante da comissão da Febrasgo e professor da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) e do programa de pós-graduação do Hospital Israelita Albert Einstein, destaca que a perda gestacional ocorre em uma parcela significativa das gestações.

Segundo ele, aproximadamente 15% a 20% das gestações não evoluem. Por isso, o acolhimento é fundamental para que a mulher não enfrente o período de luto sozinha.

“É um desafio passar por isso e é muito importante que a mulher não passe por isso sozinha”, afirma.

Alterações hormonais também podem influenciar

Além do impacto emocional, as mudanças hormonais provocadas pela interrupção da gestação também podem contribuir para a instabilidade emocional.

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A psiquiatra Andréa Cristina Galastri, professora do Instituto de Educação Médica (Idomed), explica que os níveis hormonais aumentam durante a gravidez para ajudar na manutenção da gestação. Após a perda, ocorre uma queda hormonal que pode intensificar a sensibilidade emocional.

Segundo a médica, essas alterações costumam durar aproximadamente 15 dias. Ela compara o período a uma espécie de tensão pré-menstrual, porém potencialmente mais intensa, somada ao sofrimento provocado pelo luto.

O quadro exige maior atenção quando os sintomas persistem e começam a comprometer a vida cotidiana.

Dificuldade prolongada para dormir, perda de apetite, choro constante, ansiedade intensa, depressão, perda de funcionalidade e pensamentos de que a vida perdeu o sentido são sinais que indicam a necessidade de avaliação profissional.

“O sofrimento é esperado e é natural. Mas a paralisia da vida, não”, alerta Galastri.

Quando a perda desencadeia um quadro depressivo ou um processo de luto considerado patológico, o tratamento pode envolver psicoterapia e, quando indicado por um profissional, medicamentos.

Médicos também têm papel no acolhimento

Para Eduardo Santana, o cuidado precisa começar desde os primeiros momentos após a perda. A mulher deve ser aproximada de uma rede de assistência que envolva profissionais de saúde, familiares e amigos.

O especialista explica que o processo de luto pode envolver diferentes sentimentos, como negação, raiva, tristeza e, posteriormente, aceitação. Em todas essas etapas, o acolhimento é considerado essencial.

Santana também defende uma postura mais ativa por parte dos profissionais de saúde para identificar sinais de sofrimento emocional antes que o quadro se agrave.

Segundo ele, esperar que a paciente retorne ao consultório apenas quando já estiver em depressão pode significar perder uma oportunidade importante de intervenção.

Para o obstetra, um dos desafios é ampliar a disseminação desse tipo de assistência para diferentes regiões do país.

Rede de apoio ajuda mulheres a enfrentar o luto

Atualmente com 34 anos, Kalyane vive em Campinas (SP), onde trabalha na área de marketing ao lado do marido. Depois da experiência que enfrentou, ela encontrou apoio não apenas no acompanhamento profissional, mas também no contato com outras mulheres que passaram por perdas semelhantes.

A partir das redes sociais, Kalyane criou uma comunidade voltada para mulheres que vivenciaram a perda gestacional. O espaço passou a reunir pessoas de diferentes idades e com histórias distintas.

Segundo ela, algumas mulheres carregavam o sofrimento há décadas por nunca terem encontrado um ambiente seguro para falar sobre o assunto.

“Não é todo mundo que está preparado para ouvir e lidar com esse sentimento”, relata.

As experiências compartilhadas deram origem ao livro “Ainda me Sinto Mãe”, mesmo nome utilizado por Kalyane em suas redes sociais. A obra reúne textos baseados nas experiências dela e de outras mulheres diante do luto provocado pela perda gestacional.

Setembro Amarelo reforça importância do cuidado

A discussão ganha destaque durante o Setembro Amarelo, campanha de conscientização sobre a prevenção do suicídio. Para especialistas, situações de intenso sofrimento emocional precisam ser reconhecidas e acompanhadas para evitar que evoluam para quadros mais graves.

Pessoas que estejam enfrentando pensamentos relacionados à própria morte ou à vontade de acabar com a própria vida devem procurar ajuda imediatamente e não permanecer sozinhas.

O Ministério da Saúde orienta que a pessoa converse com alguém de confiança e procure atendimento especializado.

Entre os serviços que podem ser buscados estão:

  • Centros de Atenção Psicossocial (Caps);
  • Unidades Básicas de Saúde (UBS);
  • Unidades de Pronto Atendimento (UPA 24h);
  • Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu), pelo 192;
  • Prontos-socorros e hospitais.

Também é possível procurar o Centro de Valorização da Vida (CVV), pelo telefone 188. O serviço oferece apoio emocional gratuito e sigiloso, 24 horas por dia, todos os dias da semana.

O principal alerta dos especialistas é que a dor provocada por uma perda gestacional não deve ser diminuída ou tratada como algo que simplesmente precisa ser superado rapidamente. O luto merece tempo, escuta e, quando necessário, acompanhamento profissional.

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