A Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) do Crime Organizado encerrou suas atividades sem a aprovação de um relatório final após a rejeição do parecer apresentado pelo senador Alessandro Vieira. O documento, que incluía a proposta de indiciamento de integrantes do Supremo Tribunal Federal (STF), foi derrotado por seis votos contrários e quatro favoráveis.
Com o resultado, a comissão concluiu seus trabalhos sem um posicionamento oficial consolidado, mesmo após cerca de 120 dias de investigações.
Durante a sessão, o presidente da CPI, senador Fabiano Contarato, lamentou o desfecho e criticou a decisão do presidente do Senado, Davi Alcolumbre, por não autorizar a prorrogação das atividades da comissão. Segundo ele, a medida comprometeu o aprofundamento das apurações sobre o crime organizado no país.
Contarato também apontou dificuldades enfrentadas ao longo da CPI, incluindo decisões do Supremo Tribunal Federal que, segundo afirmou, limitaram a coleta de provas e a convocação de depoentes. Apesar disso, ele se posicionou contra a proposta de indiciamento de ministros da Corte e do procurador-geral da República, destacando a necessidade de responsabilidade em medidas que possam impactar a reputação de autoridades.
Entre os nomes citados no relatório estavam os ministros Dias Toffoli, Alexandre de Moraes e Gilmar Mendes, além do procurador-geral Paulo Gonet.
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A votação dividiu os parlamentares. Votaram a favor do relatório, além do relator, os senadores Eduardo Girão, Esperidião Amin e Magno Malta. Já os votos contrários vieram de nomes como Humberto Costa, Otto Alencar, Teresa Leitão, Beto Faro, Soraya Thronicke e Rogério Carvalho.
O líder do governo no Senado, Jaques Wagner, também criticou o conteúdo do relatório, afirmando que uma CPI deve se concentrar em investigações técnicas e não em disputas políticas. Ele avaliou que o foco do documento se afastou do objetivo central da comissão, que era apurar a atuação do crime organizado.
Antes da votação, a composição da CPI foi alterada. Os senadores Teresa Leitão e Beto Faro passaram a integrar o colegiado em substituição a Sergio Moro e Marcos do Val, por indicação do líder partidário Eduardo Braga. A mudança foi alvo de críticas do relator, que atribuiu ao governo influência na derrota do parecer.
Após o resultado, Alessandro Vieira afirmou que a rejeição do relatório representa apenas um adiamento das discussões propostas, defendendo que o tema deve voltar à pauta futuramente.
Apesar da não aprovação, o documento apresentado traçou um panorama detalhado da atuação de organizações criminosas no Brasil. O relatório apontou a existência de cerca de 90 grupos atuantes, incluindo facções como o Comando Vermelho, o Terceiro Comando Puro e o Primeiro Comando da Capital.
Segundo o levantamento, essas organizações exercem influência significativa em diversas regiões, com atuação em atividades como lavagem de dinheiro, controle territorial e infiltração em setores da economia e do poder público. O relatório também indicou que milhões de brasileiros vivem em áreas sob algum grau de domínio dessas estruturas criminosas.
Entre as medidas destacadas como eficazes no combate ao crime organizado estão ações integradas de segurança pública, como as Forças Integradas de Combate ao Crime Organizado, além do foco na descapitalização financeira das facções.
Mesmo sem a validação formal do relatório, os dados levantados ao longo da CPI devem continuar a alimentar debates sobre segurança pública e estratégias de enfrentamento ao crime organizado no país.



