Auê (A Fé Ganhou): canção do Coletivo Candiero provoca embate no meio evangélico ao desafiar padrões do louvor tradicional

Faixa mistura ritmos populares brasileiros e linguagem cotidiana, gera críticas por suposta “mistura” religiosa e reacende debate sobre cultura, fé e identidade na música cristã.

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A canção “Auê (A Fé Ganhou)”, lançada pelo Coletivo Candiero, virou centro de uma intensa discussão entre evangélicos nas últimas semanas. Ao adotar ritmos populares brasileiros e uma linguagem distante do padrão mais comum do louvor congregacional, a música passou a ser alvo de críticas nas redes sociais, onde internautas questionam tanto sua estética quanto seus significados simbólicos.

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O debate ganhou força especialmente em vídeos e postagens que acusam a canção de romper limites considerados tradicionais do ambiente de adoração cristã. Para os críticos, a faixa promoveria uma aproximação indevida entre expressões culturais populares — algumas associadas, segundo eles, a religiões de matriz africana — e a música de fé evangélica.

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Título, linguagem e símbolos no centro da polêmica

Um dos principais pontos de contestação está no próprio título da música. A palavra “auê”, comum no português brasileiro, costuma ser associada a barulho, agitação ou confusão. Parte do público gospel entende que o termo contrasta com a ideia de reverência esperada em um culto religioso, argumento reforçado pela repetição da palavra no refrão, interpretada como excessivamente festiva.

A letra também gerou reações negativas por mencionar nomes populares como “Maria” e “Zé”. Um trecho que descreve “a Maria sambou, sua saia balançou” foi interpretado por críticos como uma referência indireta a figuras do imaginário religioso afro-brasileiro. Já o “Zé” citado na música foi associado, por alguns, a personagens simbólicos dessas mesmas tradições, ainda que a canção não faça menções explícitas a entidades religiosas.

Ritmo brasileiro divide opiniões

Outro foco de controvérsia é a escolha musical. A faixa incorpora elementos de ciranda, samba e música popular brasileira, distanciando-se do formato mais conhecido do louvor evangélico contemporâneo. Para críticos, essa opção estética reforça a sensação de “mistura” entre o sagrado e o profano. Já defensores da música veem na proposta uma celebração da fé cristã a partir da cultura nacional, com ênfase na alegria, na diversidade e na inclusão.

Análises mais amplas apontam que o embate vai além de questões teológicas objetivas. Para muitos observadores, a polêmica revela um choque cultural dentro do próprio cristianismo brasileiro, evidenciando tensões históricas entre tradição e inovação, além da resistência à valorização de elementos culturais locais no espaço da fé.

Apoios e críticas de líderes e artistas cristãos

Nas redes sociais, a discussão ganhou novos contornos com manifestações públicas de líderes religiosos e nomes conhecidos da música cristã. O cantor, compositor e produtor Jorge Camargo saiu em defesa do coletivo, celebrando a proposta artística como expressão da cultura e da ancestralidade brasileiras. Em tom simbólico, comparou a reação negativa à dificuldade de receber “vinho novo em odres velhos”.

O pastor Kenner Terra, líder da Igreja Batista de Água Branca, também se posicionou favoravelmente. Para ele, o incômodo causado pela música é característico de toda expressão considerada profética, sobretudo quando carrega identidade cultural brasileira. Em suas palavras, “auê” seria festa para quem tem sensibilidade espiritual ligada à brasilidade, mas “barafunda” para quem só reconhece Deus em modelos importados.

Já o pastor Lucas Graffunder, de Novo Hamburgo, avaliou que a controvérsia revela mais um problema cultural do que doutrinário. Segundo ele, ritmos regionais frequentemente são vistos com suspeita, rotulados de forma apressada por preconceito disfarçado de zelo religioso. Para Graffunder, o desafio está em discernir o conteúdo da mensagem sem demonizar o que foge do costume.

Em contraponto, o pastor, cantor e compositor Paulo Cesar, fundador do Grupo Logos, defendeu uma visão mais tradicional da música cristã. Para ele, o louvor evangélico deve ser simples, direto e claramente identificado com a mensagem bíblica, sem elementos que possam gerar ambiguidades culturais ou simbólicas.

Vocalista rebate críticas e fala em preconceito cultural

Diante da repercussão, a vocalista do Coletivo Candiero, Ana Heloysa, publicou um vídeo comentando as críticas recebidas. Ela classificou parte das reações como maldosas, presunçosas e preconceituosas, e comparou o estranhamento do público à adaptação a um novo sabor — algo que causa desconforto no início, mas pode ser assimilado com o tempo.

Segundo a cantora, a resistência a novas sonoridades na música cristã está ligada a uma herança histórica marcada pela influência europeia no formato dos cultos evangélicos no Brasil. Para ela, isso contribuiu para que muitos cristãos desprezassem a própria cultura nacional. Heloysa afirmou ainda que os personagens citados na letra representam pessoas comuns do povo brasileiro, e não figuras religiosas específicas.

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A vocalista também trouxe à tona o debate racial, questionando por que certos instrumentos e estilos musicais são sacralizados, enquanto outros são demonizados. Para ela, a reação à música expõe feridas profundas relacionadas ao racismo e à dificuldade de acolher diferenças culturais dentro das igrejas.

Debate segue aberto

Enquanto críticas e defesas continuam a se multiplicar nas redes sociais, “Auê (A Fé Ganhou)” segue como símbolo de uma discussão mais ampla sobre identidade, cultura e expressão religiosa no Brasil. A canção do Coletivo Candiero, ao que tudo indica, ultrapassou o campo musical e se transformou em um espelho das tensões que ainda marcam a relação entre fé evangélica e cultura brasileira.

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