O Brasil entrou em 2026 com um cenário preocupante no que diz respeito à vulnerabilidade social. Dados consolidados no fim de 2024 e divulgados ao longo de 2025 apontam que o país ultrapassou a marca de 365 mil pessoas vivendo em situação de rua, evidenciando um crescimento contínuo desse contingente nos últimos anos.
As informações são do Observatório Brasileiro de Políticas Públicas com a População em Situação de Rua (OBPopRua), ligado à Universidade Federal de Minas Gerais, e foram obtidas a partir do Cadastro Único de Programas Sociais, base de dados do governo federal utilizada para mapear famílias em situação de vulnerabilidade e orientar a distribuição de recursos para políticas sociais, como o Bolsa Família.
Segundo o levantamento, em dezembro de 2024 o Brasil contabilizava 327.925 pessoas em situação de rua, número que avançou ao longo do ano e chegou a 365.822 registros no fechamento do período, consolidando uma tendência de alta que permanece como desafio social em 2026.
Tendência de crescimento após a pandemia
Entre 2020 e 2021, durante o início da pandemia da covid-19, houve uma redução momentânea no número de pessoas vivendo nas ruas, com queda de 194.824 para 158.191 registros. No entanto, a partir de 2022, os números voltaram a subir e passaram a crescer de forma contínua, movimento que se manteve até o fim de 2024 e repercute nos indicadores sociais atuais.
Sudeste concentra mais de 60% da população de rua
A Região Sudeste segue concentrando a maior parte da população em situação de rua no país, com 222.311 pessoas, o equivalente a 61% do total nacional. Em seguida aparece a Região Nordeste, que soma 54.801 pessoas nessa condição.
No recorte por estados, São Paulo lidera com 150.958 pessoas em situação de rua, seguido por Rio de Janeiro (33.656) e Minas Gerais (33.139). Na outra ponta, o Amapá registra o menor número do país, com 292 pessoas.
Principais fatores apontados pelos pesquisadores
Para os pesquisadores do observatório, o crescimento da população em situação de rua está relacionado a quatro fatores principais:
- fortalecimento do CadÚnico como principal instrumento de registro dessa população;
- ausência ou insuficiência de políticas públicas estruturantes, especialmente nas áreas de moradia, trabalho e educação;
- precarização das condições de vida, intensificada no período pós-pandemia;
- impactos das emergências climáticas e deslocamentos forçados na América Latina.
Relatos revelam dificuldades além da fome
Em entrevista à Agência Brasil, Robson César Correia de Mendonça, do Movimento Estadual da População em Situação de Rua de São Paulo, avaliou que, apesar da redução dos índices de insegurança alimentar grave, a fome ainda atinge milhares de brasileiros.
Segundo ele, muitas pessoas acabam nas ruas por não conseguirem arcar simultaneamente com aluguel, alimentação e medicamentos. Mendonça relatou dificuldades pessoais para custear tratamentos de saúde, destacando o alto preço de remédios e equipamentos médicos, incompatíveis com a renda de quem vive com um ou dois salários mínimos.
Outro ponto levantado foi o impacto do avanço tecnológico no mercado de trabalho, que dificulta a reinserção profissional de pessoas sem acesso à capacitação ou atualização.
Para Mendonça, a solução passa por políticas públicas focadas em qualificação profissional, combate ao preconceito, moradia digna e inclusão no mercado de trabalho.
“O problema não está na população em situação de rua, mas na forma como o poder público encara essa realidade. É preciso tratar o tema com seriedade, dignidade e respeito”, afirmou.
Ações e respostas do poder público
Em nota divulgada anteriormente, a Secretaria de Desenvolvimento Social do Estado de São Paulo informou que vem atuando de forma integrada com os municípios para reduzir a população em situação de rua. Segundo a pasta, R$ 633 milhões foram repassados às prefeituras desde o início da atual gestão, sendo R$ 145,6 milhões destinados exclusivamente a ações voltadas a esse público.
Entre as iniciativas estão a ampliação do programa Bom Prato, com a criação de 24 novas unidades, e o fortalecimento do Serviço de Acolhimento Terapêutico Residencial, que busca promover autonomia, renda e moradia para pessoas em situação de rua afetadas pelo uso de substâncias psicoativas.
Procurado para comentar os dados no contexto atual, o Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania ainda não se pronunciou. O espaço permanece aberto para manifestações.



